Ela mentia sobre a idade que tinha quando veio para o Brasil. Numa passagem já citada aqui, ela usa o itálico para enfatizar que tinha apenas dois meses de idade quando sua família desembarcou. Tinha mais de um ano, porém, como ela bem sabia. É uma pequena diferença - era muito nova, de todo modo, para se lembrar que qualquer outra pátria -, mas é estranha a sua insistência em rebaixar a idade até o mínimo verossímil. Por que se dar ao trabalho?
Não havia nada que Clarice Lispector desejasse mais do que reescrever a história do seu nascimento. Em anotações pessoais redigidas quando estava na casa dos trinta e morando fora do país, ela escreveu: "Eu estou voltando para o lugar de onde vim. O ideal seria ir até a cidadezinha na Rússia e nascer sob outras circunstâncias". O pensamento lhe ocorreu quando estava quase caindo no sono. Sonhara que tinha sido banida da Rússia num julgamento público. Um homem diz que "só mulheres femininas eram permitidas na Rússia - e eu não era feminina". Dois gestos a traíram inadvertidamente, explica o juiz: "1o.: eu acendera meu próprio cigarro, mas uma mulher fica esperando com o cigarro até que o homem acenda. 2o.: eu mesma tinha aproximado a cadeira da mesa, quando deveria esperar que ele fizesse isso para mim".
Então foi proibida de retornar. Em seu segundo romance, talvez pensando no caráter definitivo de sua partida, ela escreveu: "O lugar onde ela nascera - surpreendia-se vagamente de que ele ainda existisse como se também ele pertencesse ao que se perde".
Trecho de "Clarice," de Benjamin Moser (Editora Cosac Naify, tradução de José Geraldo Couto, 648 páginas.
Uma odisséia, similar às cativantes e não menos pungentes viagens que transformam a vida de seus tripulantes. É assim que o leitor de Clarice,, biografia assinada por Benjamin Moser acerca daquela que é, para todos os efeitos, a mais simbólica autora brasileira do século 20, Clarice Lispector. Editada pela Cosac Naify, Clarice, revisita a vida da escritora ucraniana radicada no Brasil e, de quebra, estabelece um novo patamar no que se refere aos perfis, ensaios e narrativas sobre as vidas dos escritores. Saem de cena os detalhes mais pontuais, espasmódicos, brejeiros, dando lugar a outro tipo de interpretação, sem medo de parecer original demais ou de rever as outras leituras acerca da obra do biografado. Isso não quer dizer que Benjamin Moser quer ensinar aos escritores brasileiros como escrever biografias. Cada biógrafo conta com suas próprias técnicas e métodos para apuração. Todavia, até por esse motivo, é necessário reconhecer o diferente quando este aparece. E é justamente o caso de Moser com sua biografia de Clarice Lispector. A biografia de Clarice Lispector é diferente porque o autor, já nos primeiros capítulos, propõe uma tese como eixo temático de sua história, a saber: a questão da identidade em Clarice Lispector, elemento até então pouco abordado por aqueles que desejavam investigar "que mistério tem Clarice?", como canta a música. Nesse ponto, é bom que se diga, podem existir divergências acerca da validade dessa interpretação. Correta ou estapafúrdia, é necessário conceder ao autor o benefício da dúvida, uma vez que a obra não faz dessa tese algo apenas simbólico. É bastante sério. Não por acaso, as primeiras páginas da biografia remetem exatamente às origens da autora de A maçã no escuro. Para Benjamin Moser, antes de ser escritora, Clarice é uma autora que todo o tempo debateu de forma recorrente a noção de pertencimento. É certo que algum leitor pode imaginar que isso se deve à leitura contemporânea de Clarice, haja vista o fato de boa parte das pesquisas acadêmicas, hoje em dia, lidarem com essa tendência interpretativa. No entanto, é fundamental reconhecer que, no livro, os argumentos utilizados pelo autor são convincentes. Assim, à primeira vista, o texto de Benjamin Moser pode pecar por pouca objetividade, acusariam alguns aiatolás da narrativa jornalística. É preciso ter parcimônia, ou, mais indicado, não cometer alguns equívocos baseados na leitura de textos nacionais do mesmo gênero. Pois, de fato, biografias escritas por jornalistas brasileiros sobre artistas (?!) locais são combustíveis dessa idéia bruta sobre o modo de escrever biografias. Em outras palavras, deve-se começar o texto com um perfil à maneira das revistas de reportagem, sublinhando os desvios e os pecadilhos; enfatizando as aspas mais bombásticas; e apelando para a revelação mais sórdida sobre a personalidade. Sim, existe a noção de que as biografias brasileiras são excepcionais apenas quando há uma grande descoberta, que, muitas vezes, é apenas um gancho, criado por editores, assessores de imprensa e lobistas do mercado editorial. Em Clarice,, essa tendência inexiste. Talvez por esse motivo alguns tenham escrito que se trata apenas de um esboço biográfico. Em momento algum, cabe ressaltar, Benjamin Moser pretende esgotar o assunto. Malgrado o fato de a própria editora que publicou o livro tenha feito das suas - "uma biografia como você nunca viu" -, as ambições do autor não são tão absolutas, ainda que ambiciosas.
Pertencimento
A ambição reside no fato de que o autor busca associar toda a trajetória de Clarice Lispector à questão de pertencimento, como se sua produção literária refletisse de forma cifrada sua existência plena. Assim, o fato de ter nascido na Ucrânia, ter morado no Recife e depois ter vivido no Rio de Janeiro são aspectos tão essenciais quanto a leitura de clássicos como Crime e castigo, de Dostoievski, O lobo da estepe, de Hermann Hesse, ou a obra completa de Machado de Assis. O autor fundamenta essa tese com base nos depoimentos que compõem a narrativa. Assim, embora não seja refém desse recurso declaratório, é correto afirmar que o escritor faz uso disso quando necessita ilustrar a importância de cada detalhe. Nesse aspecto, cumpre atentar ao fato de que Moser manteve diálogo com as fontes certas, não fugindo da pesquisa de campo - característica associada apenas aos jornalistas e repórteres - para colher tantos depoimentos relevantes. Afora isso, nota-se, também, que Benjamin Moser, como biógrafo estrangeiro de uma escritora ucraniana radicada no Brasil, entendeu ser totalmente necessária a sua aclimatação nos territórios aos quais a escritora pertenceu. Com isso, em vez de apenas manter a conversa desinteressada com os locais, o autor se propôs a estudar os principais movimentos que desencadearam passagens importantes na vida de Clarice Lispector. O leitor conhece, com isso, as particularidades da cidade natal da escritora; dos pogroms; e do contexto político existente na década de 1910-20, período que antecede o nascimento de Clarice. De forma semelhante, ao tratar de seu período no Brasil, o biógrafo disseca com propriedade os meandros do país que queria se assentar como contemporâneo do mundo, das idas e vindas do governo Vargas e, muito antes disso, de como Pernambuco se constituiu como espaço importante para o desenvolvimento nacional, sobretudo no período do governo de Maurício de Nassau. Aqui, algum leitor brasileiro há de reclamar que, para o público informado, essas informações podem soar repetitivas. É preciso lembrar, todavia, que este é um livro que foi publicado primeiro fora do Brasil, onde poucos conhecem a realidade local. Mais do que isso, o resgate histórico proposto por Benjamin Moser remete à necessidade de, simultaneamente, situar a biografada no tempo e no espaço, como resultado das tensões de sua época, e dar sentido às decisões e escolhas feitas em cada momento de sua trajetória. Posto de outra forma, é como se o autor dissesse que as condições históricas e culturais também foram elementares na formação do gênio de Clarice Lispector, detalhe que não necessariamente é recorrente nas diversas interpretações da obra da autora - o que existe, e o biógrafo comenta, é certo apelo ao "místico". A propósito, este parece ser um campo vasto para a exposição da sofisticação literária de Moser. E ele não escolhe um momento exato para isso, embora a biografia seja construída de forma linear. Em diversos momentos do texto, Moser resgata um trecho, articula com declarações concedidas em várias entrevistas e propõe uma reflexão sobre o significado de cada obra, como que um esboço interpretativo. Em que pesem essas características de estilo e de método, o biógrafo não descarta suas convicções em relação à personagem que dá título a seu livro. A Clarice Lispector de Benjamin Moser lidou com seus conflitos a todo tempo, não deixando escapar nenhuma dessas complexidades. Assim, o fato de seus livros ainda parecerem algo misteriosos para boa parte dos leitores não deve reforçar o aspecto místico que ronda a personalidade da autora; antes, esse detalhe deve ser encarado como desafio para o alcance de uma abordagem mais densa e mais sofisticada acerca do significado da literatura. Em certa medida, foi dessa forma - resgatando sua identidade, interpretando sua trajetória literária; e indicando seus dilemas - que, diante da esfinge Clarice Lispector, Benjamin Moser não foi devorado.
Clarice Lispector O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados.
Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não
bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que
qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.”