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janeiro 02, 2010

Poema de 7 faces

                                       Poema De Sete Faces
                                       1960 - ANTOLOGIA POÉTICA


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos não perguntam nada.

O Homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.






















Carlos Drummond Andrade




outubro 12, 2009

Pensamentos de Drummond de Andrade

"O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam."

"Há livros escritos para evitar espaços vazios na estante."


"A confiança é um ato de fé, e esta dispensa raciocínio."

"Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons."


"Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira."



outubro 10, 2009

No Meio do caminho...

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Drummond de Andrade

Na Revista de Antropofagia publicou, em 1928, "NO MEIO DO CAMINHO".