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maio 15, 2011

Migalhas de um casamento, por Fred Vargas

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"Com 86 anos, a gente tem o direito de começar a viver. Tem noites assim. Noites em que um homem se levanta e age."




Pequenas migalhas de pão iam da cozinha ao quarto, e chegavam até os lençóis limpos em que repousava a velha, morta e de boca aberta. O delegado Adamsberg, indo e vindo a passos lentos ao longo das migalhas, as contemplava em silêncio, perguntando-se que Pequeno Polegar, ou, no caso, que Ogro, as perdera por ali. Era um pequeno e escuro apartamento térreo de três cômodos no 18ºarrondissement de Paris.
No quarto, a velha deitada. Na sala de jantar, o marido. Este aguardava sem impaciência ou emoção, apenas olhando com certa avidez para o jornal, dobrado na página das palavras cruzadas que ele não se atrevia a prosseguir enquanto os tiras estivessem no local. Já tinha contado sua breve história: ele e a mulher tinham se conhecido numa empresa de seguros, ela secretária, ele contador, casaram-se alegremente sem saber que seria por 59 anos. E então a mulher morrera durante a noite. De parada cardíaca, explicara por telefone o delegado do 18º arrondissement. Acamado, ele ligara pedindo a Adamsberg que o substituísse. Faça-me esse favor, é só uma horinha, rotina matinal.
Adamsberg acompanhou uma vez mais a trilha de migalhas. O apartamento estava impecável, poltronas revestidas com encosto de cabeça, as superfícies plásticas polidas, os vidros sem manchas, a louça lavada. Remontou até a lata de pão, que continha meia baguete e, envolto num pano limpo, um naco grande de pão sem o miolo. Voltou para junto do marido, puxou uma cadeira para perto de sua poltrona.
 – Nenhuma boa notícia hoje – disse o velho, tirando os olhos do jornal. – Também, esse calor põe os temperamentos em ebulição. Mas aqui no térreo, dá para manter um ar mais fresco. Por isso é que deixo as venezianas fechadas. E dizem que também é bom tomar muito líquido.
– O senhor não se deu conta de nada?
– Ela estava normal quando fui deitar. Como era cardíaca, eu sempre dava uma olhada. Só agora de manhã percebi que tinha se finado.
– Tem umas migalhas de pão na cama dela.
– Ela gostava. De dar uma beliscada. Um pedacinho de pão ou torrada na cama, antes de dormir.
– Imaginei que ela limpasse os farelos todos depois de comer.
– Quanto a isso, nenhuma dúvida. Ela limpava da manhã à noite como se essa fosse sua razão de viver. No começo, não era tanto. Mas, com o passar dos anos, virou uma obsessão. Ela seria capaz de sujar só para poder lavar. O senhor tinha que ver. Mas também, pobrezinha, assim se mantinha ocupada.
– Mas e o pão? Ontem à noite ela não limpou?
– É claro que não, porque fui eu que levei o pão para ela. Estava fraca demais para levantar. Ela até me mandou tirar os farelos, mas eu realmente não ligo para essas coisas.Ela teria limpado no dia seguinte. Ela virava o lençol todo dia. Para quê, ninguém sabe.
– Quer dizer que o senhor levou o pão para ela na cama, e depois guardou de volta na lata.
– Não, joguei no lixo. Estava muito duro, ela não conseguia comer. Levei uma torrada para ela.
– O pão não está no lixo, está na lata.
– Sim, eu sei.
– E está sem o miolo. Ela comeu o miolo?
– Não, delegado, caramba! Por que ela iria se empanturrar de miolo? Miolo de pão duro? O senhor é delegado, não é?
– Sou. Jean-Baptiste Adamsberg, Brigada Criminal.
– Por que não veio a polícia do bairro?
– O delegado está de cama com essa gripe de verão. E a equipe dele estava indisponível.
– Estão todos gripados?
– Não, houve uma briga na noite passada. Dois mortos e quatro feridos. Por causa de uma lambreta roubada.
– Que terrível. Também, com esse calor, os miolos ficam fervendo. Eu sou Julien Tuilot, contador aposentado da empresa ALLB.
– Sim, já anotei.

janeiro 16, 2011

Conto - A árvore e Lúcia

A árvore e Lúcia

Há uma árvore perto de casa. Às vezes, ela aparece com umas folhas amarelas... Às vezes, um pássaro fica nela. Gosto de olhá-la. Perco a noção do tempo quando olho.
Minha mãe é que se incomoda, parece até que tem algum problema ficar olhando a árvore. Parece até pecado. Minha mãe diz assim:
–– Que isso, menina? Vai ficar olhando essa árvore o dia todo? Credo em cruz.
Não disse... Parece até pecado. Não faço nada de mais, só fico olhando. Que mal há nisso? Fico olhando... É que ela muda tanto, o vento que bate nela muda tanto, tem tanta coisa pra ver, mas o tempo parece curto.
Lá vem minha mãe...
–– Pelo menos você está fazendo alguma coisa de diferente... Escrever também é interessante, minha filha. Mas tinha que escrever perto dessa árvore? Lúcia, por que toda essa fixação?
–– Não é fixação, mãe... É só vontade.
–– Vontade? Mas de quê?
–– De poder colocá-la num quadro.
–– Então, por que você não faz um desenho?
–– A senhora não entende.
Lá se vai minha mãezinha; ninguém entende. A árvore é muito especial para mim, muitíssimo. Quando digo isso às pessoas, sempre perguntam: por quê? Ora, não aguento mais explicar... Não sei direito expressar. Minha professora já até falou para mim:
–– Lúcia, você precisa deixar de ser tão tímida e falar melhor, entende?
–– Não é timidez. É vazio que sinto às vezes.
–– Vazio?
–– Vazio... Não encontro...
–– Não encontra?
–– É, assim como a senhora que fica repetindo as palavras que digo.
–– Tente não ser muito subjetiva, minha querida.
–– O que significa isso?
–– Quando a gente não vai direto ao ponto. Fica rodopiando com as palavras, sem dizer, de verdade, o que a gente quer dizer.
–– Ah... Obrigada.
–– Agora, menos vazio.
Quando disse isso, minha professora suspirou. O que fiz? – foi o que me perguntei – Nada – foi o que pensei.
Minha árvore... Ora, ela não é minha... Acho que ela é como a rua, pois minha mãe diz:
–– Ai... Essa gente, não deveria jogar lixo na rua; ela é pública!
Acho que árvore é pública. Mas se é pública, por que ninguém a publica?
Ora... Tenho que parar com isso. A minha professora diz que eu brinco demais com as palavras. Deve ser isso... Misturado com a tal da subjetividade. Isso faz de mim assim. Por ser assim as pessoas ficam me perguntando as coisas. Ai... Deus sabe que não aguento mais tantas perguntas. Não posso ser assim?! Mas só me encontrei assim. Vai ver... É o vazio.
Vazio... Só pensei direito nessa palavra quando a professora foi me fazer aquelas perguntas. Vazio tem muito significado. Vazio de palavras, vazio de coração, vazio de imaginação, vazio de árvore me dá até uma dor no coração.
Olho a árvore desde criancinha... Só que a cada dia parece que fico mais tempo olhando... Deve ser essa a preocupação da minha mãe. Se o tempo aumenta tanto assim... Talvez um dia eu não faça mais nada da vida... Fique só olhando a árvore. Será que minha mãe pensa que vou parar de estudar? Ou, sei lá, pensa que eu não vou mais nem tomar banho? Não sei. Mamãe é muito preocupada. Ela deveria olhar um pouco a árvore.
A árvore é muito especial, só que as pessoas, quando passam por ela nem notam, nem veem. As pessoas andam rápido, falam rápido, pensam rápido, tudo rápido. Até que entendo... Tenho medo do tempo. Não! Acho que não é medo do tempo, é medo de não dar tempo. O que acontece de diferente comigo é que em vez de ficar passando o olhar pelas coisas como as pessoas fazem, eu escolhi uma coisa para olhar: a árvore.
Pensei – podem todos discordar: eu gosto muito de minha arvorezinha que vejo crescer desde pequenininha, então olharei o quanto puder para ela.
Simples? Acho bastante simples. Entretanto, há um grande problema: minha árvore muda a cada instante. Tanta coisa acontece, as folhas caem, bichos a furam e a fazem de abrigo, pássaros pousam, formigas sobem; tanta coisa acontece o tempo inteiro e eu fico imensamente pequenina perto desses acontecimentos. Não vou poder apreciar-lhe tudo, não posso! Não tenho poder sobre ela, mas ela tem um poder sobre mim. Eu conheço muitos detalhes e marcas que ela possui. Conheço tantas coisas, mas as coisas vão se tornando poucas, pouquinhas, nada. Ela muda e não há como acompanhar todas as mudanças. Isso me entristece um pouco, mas também me incita – aprendi esta palavra ontem, gosto de ficar lendo dicionário –, pois eu posso sempre me surpreender e não torna o que tenho para olhar chato. É mágico poder saber que ela muda. É triste não poder sempre ver, mas eu escolhi algo, algo para apreciar. Os outros escolheram passar por ela e não dar atenção. Os outros têm um detalhe para falar de cada coisa da vida, eu tenho vários para falar da árvore.
–– Lúcia, venha jantar!
Até mais, árvore.
Hoje, cheguei da escola mais cedo, estava chovendo muito; tantos raios e trovões impossíveis de acompanhar, tanta fúria. Quando eu cheguei, minha árvore estava caída no chão. Dediquei tanto tempo a ela e no final eu nem posso observar sua queda. Minha mãe quando eu cheguei a casa estava com um olhar triste como se ela tivesse perdido algo. Pensei: perdi a queda! Ter perdido a queda não me sai do pensamento, eu não estou triste por causa da perda de minha árvore, porém por causa da perda de um momento muito importante.
–– Lúcia, no mundo há muitas árvores bonitas para se olhar.
–– Obrigada, mãe. Achei que a senhora não gostasse de me ver olhando a árvore.
–– Ela era importante.
–– Especial.
–– Sim, muito especial.
No dia seguinte, bem cedinho, minha mãe estava lá fora olhando a árvore – que foi muito educada não caindo no meio da rua, mas na calçada e não era na frente da casa de ninguém, mas na frente do muro da escola.
–– Mãe, o que a senhora está fazendo aí?
–– Filha, você já tinha visto essa espécie de formiga?

02-01-2010

dezembro 13, 2009

Felicidade Clandestina


Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996



Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. 

Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não 

bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que 

qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
 Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.