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julho 27, 2011

Mini crônica - Nua pela cidade


Eu estava nua andando pela cidade, passei pelo barzinho do seu Wilson e disse um sorridente e costumeiro olá e ele me olhou normalmente dizendo: “tudo bem, Ná?” “Tudo em cima, Seu Wilson! Como vai a Dona Vanda?” disse. “Tudo em paz com ela, minha flor.” Sorri e continuei minha caminhada nua. Percebam que eu disse caminha nua e não nua caminha, portanto, não achem que toda essa nudez está no sentido metafórico. Longe de mim estavam as metáforas, mas... metaforizando, estava nua de tudo mesmo. 'Nuíssima'. Erradamente nua, mas era certo. Explicarei o porquê.
Minha nudez estava certíssima, não porque todos ao meu redor estavam nus, mas, sim, porque todos olhavam-me como se nada de errado estivesse  fazendo. Não era bem uma coisa certa, nem normal – pois norma certamente não seguia, já que todos estavam vestidos –, porém em momento algum as pessoas ligavam para minha nudez e não era por estarem todos muito ocupadas, afinal sempre há aquelas pessoas que por  ausência de vida, preocupam-se com a alheia, respiram o ar alheio, ouvem os sons  destinados a outros ouvidos.... Enfim, até aqueles que estão aí para tudo, não estavam aí para mim.
Ai, mas quão tranquila estava eu a caminhar, disse oi para Dona Expeditina, que colocava um bolo na janela para esfriar... e ela me disse: "É de fubá, Ná, seu preferido, depois vem cá pegar um pedaço! Sim, o Pedrinho mandou perguntar se você está livre no domingo à tarde pra ensinar pra ele português, tadinho, tá com nota baixa na matéria. Respodi: “Sim, estou livre, venho à tarde ensinar a ele.” “Obrigada, Ná, não se esqueça do bolo, viu, venha antes que acabe.” “E eu lá vou esquecer de comida, Dona Expeditina!”
Continuei meu passeio pela minha cidade, falando com os meus conhecidos, passando por lojas... Continuei  e ninguém se importava com minha nudez. Ninguém. Ah... Nem eu me importava, era para mim muito normal não estar vestida.
Acordei, era sonho é claro, vocês já deveriam ter previsto. Mas que sonho estranho esse, minha nudez não era metafórica, estava nua mesmo e não se importavam com isso... Tinha que ser sonho mesmo... quando é que vão deixar de se importar com os outros? Neste mundo, sobrevivência é uma questão de imitação. Quem não segue a norma, normal não é.
No sonho, pelo menos, não fui para o hospício.

Crônica - O Brasil dos que não são vistos

30-04-2011 

Eu conheço alguém que costuma dizer: deve-se  criticar mesmo os políticos, pois se eles acertam, não fazem mais do que a obrigação. Não tenho que ficar agradecido por determinados avanços nem regalias.
Mas e aí? O que será mesmo correto? Criticar é a melhor opção?, criticar somente é a melhor opção? Ou não, criticar somente não é correto, é necessário ver também os acertos. Mas por que vemos os acertos? Por que se diz: Fulano foi ótimo, foi por causa dele que eu passei a comprar, tenho uma geladeira, um fogão e até um micro-ondas, onde que ia pensar que teria um micro-ondas? 
Comprar é deveras muito importante. Desenvolver o mercado interno do país é ótimo, não foi assim que superamos a crise? Mas isso não é o suficiente. Há coisas que muitos não veem. Muitos. Coisas assim, simplíssimas. Saneamento é uma delas, por que isso não é considerado tão importante? Para os poucos cidadãos que se questionam sobre tal assunto, tenho-lhes uma resposta – que provavelmente vocês poucos já devem ter pensado – não se vê! Saneamento não é uma ponte, saneamento não é pobre comprando, a gente não passa numa rua e diz: essa rua é saneada! Mas se alguém constrói uma ponte, se alguém arrumou uma rodovia – mesmo que esta vá esburacar em dois tempos – , certamente nós, cidadãos, nos lembraremos de quem fez a ponte, de quem melhorou visivelmente as nossas vidas. Também há o pobre que tem um maior poder de compra, vota no político que possibilitou isso para ele. E como não votaria? É claro que quando se melhora a situação financeira, continua-se querendo melhorá-la. Óbvio! Por qual motivo eu votaria em alguém que não fez nada para mim? Ora, se eu posso votar em alguém que fez! Ótimo então! 
Agora, voltando ao saneamento.. E aí? Não é importante? No O Globo de hoje, vi a foto de um casal de Recife que vive numa “casa” sem água e sem esgoto, ah... a luz é clandestina e só foi adquirida este ano. E aí? Eles estão de baixo de uma ponte. Acho que ninguém nunca viu. Político nenhum passou por lá. 
Falar bem? Isso cultural. Não é para falar bem não, pois coisas boas não são maravilhosas, elas obrigatoriamente tem de ser feitas. Coisas boas são coisas necessárias. Uma casa. Saneamento. Luz. Água. Educação. Livros. Cultura. Isso é bom realmente, mas é não é só isso, é obrigação. 

março 07, 2011

Bruna Surfistinha,profissionais no sexo, preconceito

A primeira vez em que vi o trailer de Bruna Surfistinha, falei horrores, considerava absurdo que um filme sobre a história de uma prostituta por opção fosse para as telas... Achava horrível, uma coisa é contar a estória de Tereza Batista - obra de Jorge Amado - que não teve escolha na vida, que foi mandada para as mãos de um coronel, ainda criança, mas a história de uma menina que teve oportunidades, que não foi obrigada... que podia ter sido o que bem entendesse, ah.. isso não tolerava. Mas, leitores, hoje eu tolero, pois quem sou eu para julgar as escolhes de alguém? Nada. 
Certo, porém se formos parar para pensar - esquecendo Bruna - por que será que existe profissional do sexo? Existe, pois todos temos necessidades sexuais, entretanto o que fazemos, ou melhor, o que alguns de nós faz? julgam. julgam, simplesmente, como se isso fosse errado. Não estou dizendo que é certo um homem - pode ser uma mulher - procurar uma prostituta sendo casado... não, não me parece correto, o problema é o preconceito, pois muitos homens ainda não admitem dar e tirar prazer de sua esposa da forma como eles quiserem, satisfazendo um ao outro, poxa... isso não é legal. Acho que muita gente precisa abrir a cabeça, perceber que parceiro não é apenas para dividir problemas, dinheiro, é para dar e sentir prazer, ficar junto até que a morte os separe não vai resolver os problemas sexuais... Fiquem juntos, mas conversem sobre a sua vida sexual, não fiquem com vergonha, não achem feio nem errado.
Algumas mulheres morrem sem nunca ter tido um orgasmo, muitos, ao ler algo assim... pensam: e daí? Pois, pessoas que pensam isso, acho que prazer é uma coisa séria, todo mundo tem o direito de sentir e se isso for em casa, com o parceiro, os relacionamentos fixos serão melhores. 


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Quanto ao filme, estou achando um pouco chato, estou assistindo a uma hora e vinte minutos, mas... há algo engraçado: um defeito, no que se refere à tecnologia, deixaram a desejar no blog de Bruna... aparece umas letras brancas na tela azul do computador, simplesmente, não há blog... só umas letrinhas, rsrs. 
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Terminado o filme...
Achei, também, que Débora Secco é superior ao filme como um todo, pois o final não é muito legal... Ele se apresenta de uma forma no princípio mostrando situações de um período de tempo curto retratado em grande parte do longa, mas, o final, é retratado às pressas, a ascensão e queda da menina-prostituta é muito rápida, isso é um tanto decepcionante. Mas é atuação da atriz é incrível. 

fevereiro 20, 2011

Lobão em Natal - turnê Elétrico \o/



Estou muito feliz! Lobão estará aqui. ^^ Adoro Lobão, amo o seu jeito irreverente de ser, gosto de suas letras e acho que deveria estar numa melhor posição no cenário de nossa música. Às vezes penso que quando pensamos em música boa... a primeira imagem que nos vem é a de Chico Buarque; claro, é uma bela imagem... Sou louca por Chico e, muitas vezes, sinto uma inveja danada, pois ele tem no seu versificar um bocado de alma feminina, um bocado de alma masculina, um bocado de todo mundo, ou seja, ele coloca em suas músicas várias facetas humanas, vários casos... várias vidas, num lapidar incrível da alma. Há coisa mais bela que isso? Sei que se torna muito difícil comparar Chico com algum outro compositor, muitos acreditam que a comparação só fica cabível se for com Noel Rosa. Ah... Sei que cada um tem sua opinião sobre música... mas, muita gente diz: Noel? Ah... igual a Noel não há!
Sim... voltando a Lobão... Lobão é incrível, não gosto de ver as pessoas dizendo: não gosto de Lobão. Não gosto de Lobão... Ai... Lobão tem uma cara feia, um ar arrogante... Talvez, Lobão tenha sido o próprio causador dessa imagem rude que foi criada, entretanto julgá-lo apenas por ele ter fumado "drogas ilícitas" e falar o que lhe vem à cabeça... Ah, isso não me parece certo. A gente também precisa analisar a época, afinal  quando Lobão fumava, todo mundo estava fumando, e o que ele diz muitas vezes convém com nossa realidade, por exemplo, o tal "movimento": Peidei, mas não fui eu... isso é BRASIL, infelizmente. Lobão já foi plagiado, injustiçado, e agora está sendo processado; o seu jeito sincero de ser já lhe rendeu e rende muitos altos e baixos, será que não nos falta um olhar mais musical? Será que não deveríamos parar de avaliá-lo apenas pela sua "rebelde conduta"?


Sim.... ia me esquecendo, Lobão estará no Teatro Riachulo. 



janeiro 17, 2011

Amar, verbo intransitivo







Estava com vergonha de publicar, mas minha amiga insistiu e postou no blog dela um texto meu. Então, aqui está:


Desde o ano passado venho a me perguntar qual o sentido desta frase: Amar, verbo intransitivo, sei bem que Mário tem um romance com esse título e sei, também, que existe um poema de Drummond com o mesmo nome, mas... sim, venho a me questionar há tempos sobre o significado disso, colocava-o sempre para o lado gramatical: intransitivo -> não precisa de complemento... Só que construí, assim, um significado muito vago, nada "bonito" sobre aquilo que me "atormentava" tanto... Pensei, muitas vezes, que o amor seria algo que não precisava de complemento - nada perspicaz -, só que o que havia presumido é de uma sensibilidade mínima, afinal, o concluído foi: ninguém precisa do outro para amar, ama-se, somente, acreditei que o que queria dizer tal frase, ou melhor, filosofia, era que a gente não precisa do outro, o amor acontece para um e não necessariamente para dois. Resumidamente, a ideia era amor platônico, isto é, o amor não precisa ser correspondido.
Tudo isso foi pensado ano passado, depois abandonei tal ideia, esqueci-a, mas um dia desses... Voltei a filosofar: Amar, verbo intransitivo.

(...)

Continue a ler em: Tosqueira

abril 18, 2010

Um umbigo literário

Li uma vez que Fernando Pessoa tinha certo asco à homossexualidade, entretanto se dizia mulher “na cabeça”, mas isso nunca passou para o seu corpo.
(Eu nunca li C a p i t u – esqueci: Dom Casmurro –, mas assisti a minissérie da Globo – que aliás, é divina. Tirei algumas conclusões sobre o romance, um dia lê-lo-ei.)

Às vezes penso na nossa literatura como um grande corpo feminino de cérebro masculino* e umbigo de Capitu, sim umbigo... Creio que você já deve ter ouvido falar de uma lei do centro que tem como exemplo a pintura Monalisa, por isso o quadro é tão genial. A ciência também fala disso – dessa lei Áurea; minha professora de cello diz para eu tocar com o arco na parte central das cordas, pois o som sai melhor. É coisa de centro. É melhor ficar no centro da sala. É muito bom ser o centro das atenções. Coisa de centro. Entretanto, não quero tornar “o centro” uma coisa matemática, pelo contrário, só quero dizer que Capitu é o centro. Li uma crônica-conto de Lygia Fagundes Telles – vou pegar o livro para reler – de título Rua Sabará, 400, quem estava nele? Capitu! Mas é perfeitamente compreensível, porque, juntamente com Paulo Emílio, ela estava escrevendo um roteiro para o romance. Agora li Capitu sou eu de Dalton Trevisan, já que me foi pedido, gostei muito; adorei a revolta: “A sonsa, a oblíqua, a perdida Capitu. Essa mulherinha à-toa.” O mais interessante nos dois textos é que as pessoas mud(av)am de opinião, nenhuma convicção, esta é uma obra eterna de uma eterna efemeridade. Nunca há um consenso, e como haver? Parar de discutir sobre o livro – ou talvez, a bruxaria? Eu não li, e já estou marcada. Conhece alguém sem umbigo? Conhece um escritor sem Capitu? *



* Muitas mulheres escreviam antigamente, mas elas tinham pseodônimos masculinos, um exemplo de mulher potiguar que não fez isso foi Auta de Souza.
* Pode existir!


fevereiro 19, 2010

Sonhar



É o novo blog de Alanny, aquela do Entrelinhas - aliás a mocinha perdeu a senha.
Sim, ela fez este blog... E como já disse a ela: está se formando cronista!


Amar, desamar... Mas não deixar de tentar!







Hoje, quinta-feira, dia 18/02/10 às 19h12, eu aqui... Pensando nos sentimentos e no que eles podem nos trazer. Bleh! Como somos vuneráveis a eles... Como temos medo deles, não é mesmo? Sentimentos confusos, dolorosos, complexos, às vezes, inúteis.


É difícil falar de sentimento, cada um sabe o que sente de verdade. Sabemos que existe aquele pontinho vermelho com apenas uma função dentro de nós, justamente a que nos mantém vivos. Aquele que bombeia nosso sangue.. este que carrega o sentimento. O sentimento que corre em nossas veias. O amor, a paixão, o carinho, a felicidade, a amizade, a raiva, o ódio, a mágoa, a decepção, o sofrimento, o desamor... Dentre tantos outros que desconheço. Incrivelmente cada um deles tem um poder diferente sobre nós. Estremece todas as nossas bases, confundem todos os nossos pensamentos, todas as nossas ações. Choramos, sorrimos, sonhamos... E no fim? Ou melhor... Quando tem um fim? Mesma coisa. Choramos, sorrimos ou sonhamos...


O melhor de todos, para mim, é a amizade, isto é, quando é forte, verdadeira, sincera, única. Por cima de pau e pedra, juntos pro que der e vier. Conselhos, broncas, diversão, ih! É a melhor coisa.
 
 
Confira o resto no blog dela: Sonhar

fevereiro 17, 2010

Falar ou não falar? Sexo, eis a questão!

É, parece que peguei o hábito de colocar meus trabalhos de escola no meu blog.
Minha professora de Redação, Paulinha... Pediu para que procurássemos uma música que pudesse ser tema de uma crônica, adorei o fato de poder estudar crônica, porque faz um tempo que ando desligada deste gênero, pois estava investindo e ainda estou em contos... Mas fiz uma croniquinha - melhor assim do que cronicazinha, afinal estaria desvalorizando meu trabalhinho.

Certo, aqui está:

Sexo – Ultraje a Rigor (Rogério/ Maurício)
Sexo!



Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Eu quero Sexo! Me dá Sexo!







Hoje vai passar um filme na TV



Que eu já vi no cinema



Êpa! Mutilaram o filme



Cortaram uma cena...







E só porque



Aparecia uma coisa



Que todo mundo conhece



Se não conhece



Ainda vai conhecer



E não tem nada de mais



Se a gente nasceu



Com uma vontade



Que nunca se satisfaz



Verdadeiro perigo



Na mente dos boçais...







Corri pr'o quarto



Acendi a luz



Olhei no espelho



O meu tava lá



Ainda bem



Que eu não tô na TV



Senão ia ter que cortar...







Ui!



Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Eu quero Sexo! Me dá Sexo!



Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Eu quero Sexo! Vem cá Sexo!







Bom! Vá lá, vai ver



Que é pelas crianças



Mas quem essa besta pensa



Que é prá decidir?



Depois aprende por aí



Que nem eu aprendi...







Tão distorcido



Que é uma sorte eu não



Ser pervertido



Voltei prá sala



Vou ver o jornal



Quem sabe me deixam



Ver a situação geral



E é eleição, é inflação



Corrupção e como tem ladrão



E assassino e terrorista



E a guerra espacial



Socorro!...







Eu quero Sexo! Me dá Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Sexo!



Me dá Sexo! Me dá Sexo!



Eu quero Sexo!







Sexo! Eu quero Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Me dá Sexo! Me dá Sexo!



Eu quero Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Sexo!







Sexo! Eu quero Sexo!



Como é que eu fico sem Sexo?



Vem cá Sexo! Senta Sexo!



Vem cá Sexo! Me dá Sexo!



Solta Sexo!





Falar ou não falar? Sexo, ainda és a questão!





Ultraje a Rigor é uma banda que nasceu nos anos 80 a qual a censura perturbou bastante, afinal letras como Inútil e Sexo!! são bastante contundentes.
Sexo, deveras me chamou a atenção, afinal até hoje existe certo tabu com tal questão, mas poxa, sexo não é a “coisa que todo mundo conhece e se não conhece ainda vai conhecer”? Então por que há tanta máscara ao redor do sexo, sexualidade?
A resposta que vem de supetão à cabeça é: MEDO. Os pais têm medo de contar para os filhos e esclarecer; eu sei que deve ser mesmo difícil, mas se os pais não contarem, as crianças vão aprender de forma errada, desse jeito pode acontecer de haver problemas futuros, na música existe o trecho: Depois aprende por aí/Que nem eu aprendi.../Tão distorcido/Que é uma sorte eu não/Ser pervertido.
Uma coisa tão necessária à vida – mesmo após a inseminação, quem não quer fazer à moda antiga? –, a saúde... Tabu de mais... Isso não é legal, afinal como é que se fica sem sexo?
Quero ressaltar também a crítica que a música faz com relação ao contexto sócio-político: Quem sabe me deixam/Ver a situação geral/E é eleição, é inflação/Corrupção e como tem ladrão/E assassino e terrorista/E a guerra espacial/Socorro!... Eu penso quanto a este trecho: Cara, tem tanta coisa ruim no nosso País e olha só o que vão cortar: SEXO!! Pois então, cortar uma cena de sexo e não impedir a corrupção? Realmente, é para revoltar; impendem algo relacionado à vida de tantos animais e não impedem coisas extremamente piores, horríveis: corrupção, violência, inflação.
Esta é uma boa música para se pensar e refletir, né?


OUÇA A MÚSICA SEXO!!

agosto 21, 2009

Um mendigo original

Morreu trasanteontem, às 7 da tarde, de uma congestão, o meu particular amigo, o mendigo Justino Antônio.
Era um homem considerável, sutil e sórdido, com uma rija organização cerebral que se estabelecia neste princípio perfeito: a sociedade tem de dar-me tudo quanto goza, sem abundância mais também sem o meu trabalho - princípio que não era socialista mas era cumprido à risca pela prática rigorosa.
A primeira vez que vi Justino Antônio num alfarrabista da rua São José foi em dia de sábado. Tinha um fraque verde, as botas rotas, o cabelo empastado e uma barba de profeta, suja e cheia de lêndeas. Entrou, estendeu a mão ao alfarrabista.
- Hoje, não tem.
- Devo notar que há já dois sábados nada me dás.
- Não seja importuno. Já disse.
- Bem, não te zangues. Notei apenas porque a recusa não foi para sempre. Este cidadão, entretanto, vai ceder-me quinhentos réis.
- Eu!
- Está claro. Fica com esta despesinha a mais: quinhentos réis aos sábados. É melhor dar a um pobre do que tomar um chope. Peço, porém, para notares que não sou um mordedor, sou mendig0, esmolo, esmolo há vinte anos. Tens diante de ti um mendigo autêntico.
- E por que não trabalha?
- Porque é inútil.
Dei sorrindo a cédula. Justino não agradeceu, e quando o vimos pelas costas, o alfarrabista indignado prorrompeu contra o malandrim que com tamanho descaro arrancava os níqueis à algibeira alheia. Achei original Justino. Como mendigo era uma curiosa figura perdida em plena cidade, capaz de permitir um pouco de fantasia filosófica em torno de sua diogênica dignidade. Mas o mendigo desapareceu, e só um mês depois, ao sair de casa, encontrei-o à porta.
- Deves-me dois mil-réis de quatro sábados, e venho ver se me arranjas umas horas usadas. Estas estão em petição de miséria.
Fi-lo entrar, esperar à porta da saleta, forneci-lhe botas e dinheiro.
- E se me desses o almoço?
Mandei arranjar um prato farto, e com a gula de descrevê-lo, fui generoso.
- Vem para a mesa.
- A mesa e o talher são inutilidades. Não peço senão o que necessito no momento. Pode-se comer perfeitamente sem mesa e sem talher.
Sentou-se num degrau da escada e comeu gravemente o pratarraz. Depois pediu água, limpou as mãos nas calças e desceu.
- Espera aí, homem. Que diabo! Nem dizes obrigado.
- É inútil dizer obrigado. Só deste o que falta não te faria. E deste por vontade. Talvez fosse até por interesse. Deste-me as botas velhas como quem compra um livro novo. Conheço-te.
- Conheces-me?
- Não te enchas, vaidoso. Eu conheço toda a gente. Até para o mês.
- Queres um copo de vinho?
- Não. Costumo embriagar-me às quintas; hoje é segunda.
Confesso que o mendigo não me deixou uma impressão agradável. Mas era quanto possível novo, inédito, com a sua grosseria e as suas atitudes de Sócrates de ensinamentos. E diariamente lembrava a sua figura, a sua barba cheia de lêndeas... Uma vez vi-o na galeria da Câmara, na primeira fila, assistindo aos debates, e na mesma noite, entrando num teatro do Rocio, o empresário desolado disse-me:
- Ah! não imaginas a vazante! É tal que mandei entrar o Justino.
- Que Justino?
- Não conheces? Um mendigo, um tipo muito interessante, que gosta de teatro. Chega à bilheteira e diz: "Hoje não arranjei dinheiro. Posso entrar?" A primeira vez que me vieram contar a pilhéria achei tanta graça que consenti. Agora, quando arranja dez tostões compra a senha sem dizer palavra e entra. Quando não arranja repete a frase e entra. Um que mal faz?
Fui ver o curioso homem. Estava em pé em geral, prestando uma sinistra atenção às facécias de certo cômico.
- Justino, por que não te sentas?
- É inútil. Vejo bem de pé.
- Mas o empresário...
- Contento-me com a generosidade do empresário.
- Mas na Câmara estava sentado.
- Lá é a comunhão que paga.
Insisti no interrogatório, a falar da peça, dos atores, dos prazeres, da vida, do
Justino conservou-se mudo. No intervalo convidei-o a tomar uma soda, por não ser quinta-feira.
- Soda é inútil. Estás a aborrecer-me. Vai embora.
Outra qualquer pessoa ficaria indignadíssima. Eu curvei resignadamente a cabeça e acabei vexado.
A voz daquele homem, branca, fria, igual, no mesmo tom, era inexorável.
- É um tipo o teu espectador - disse ao empresário.
- Ah!... ninguém lhe arranca palavra. Sabes que nunca me disse obrigado?
Eu andava precisamente neste tempo a interrogar mendigos para um inquérito à vida da miséria urbana e alguns dos artigos já haviam aparecido. Dias depois, estando a comprar charutos, entra pela tabacaria adentro o homem estranho.
- Queres um charuto?
- Inútil. Só fumo às terças e aos domingos. Os charuteiros fornecem-me. Entrei para receber os meus dois mil-réis atrasados e para dizer que não te metas a escrever a meu respeito.
- Por quê?
- Porque abomino a minha pessoa em letra de forma, apesar de nunca a ter visto assim. Se fizeres a feia ação, sou forçado a brigar contigo, sempre que te encontrar.
A perspectiva de rolar na via pública com um mendigo não me sorria. Justino faria tudo quanto dissera. Depois era um fenômeno de hipnose. Estava inteiramente dominado, escravizado àquela figura esfingética da lama urbana, não tinha forças para resistir à sua calma e fria vontade. Oh! ouvir esse homem! Saber-lhe a vida!
Como certa vez entretanto, à 1 hora da manhã, atravessasse o equívoco e silencioso jardim do Rocio, vi uma altercação num banco. Era o tempo em que a polícia resolvera não deixar os vagabundos dormirem nos bancos. Na noite de luar, dois guardas civis batiam-se contra um vulto esquálido de grandes barbas. Acerquei-me. Era ele.
- Vamos, seu vagabundo.
- É inútil. Não vou.
- Vai à força!
- É inútil. Sabem o que é este banco para mim? A minha cama de verão há doze anos! De uma hora em diante, por direito de hábito, respeitam-na todos. Tenho visto passar muito guarda, muito suplente, muito delegado. Eles vão-se, eu fico. Nem tu, nem o suplente, nem o comissário, nem o delegado, nem o chefe serão capazes de me tirar esse direito. Moro neste banco há uma dúzia de anos. Boa-noite.
Os civis iam fazer uma violência. Tive de intervir, convencê-los, mostrar autoridade, enquanto Justino, recostado e impassível, dizia:
- Deixa. Eles levam-me, eu volto.
Afinal os guardas acederam, e Justino deitou-se completamente.
- Foi inútil. Não precisava. Mas eu sou teu amigo?
- Meu amigo?
- Certo. Nunca te pedi nada que te pudesse fazer falta e nunca te menti. Fica certo. Sou o teu melhor amigo, sou o melhor amigo de toda a gente.
- E não gostas de ninguém.
- Não é preciso gostar para ser amigo. Amigo é o que não sacrifica.
E desde então comecei a sacrificar-me voluntariamente por ele, a correr à polícia quando o sabia preso, a procurá-lo quando o não via e desesperado porque não aceitava mais de dois mil-réis da minha bolsa, e dizia, inexorável, a cada prova da minha simpatia:
- É inútil, inteiramente inútil!
Durante três anos dei-me com ele sem saber quantos anos tinha ou onde nascera. Nem isso. Apenas ao cabo de seis meses consegui saber que fumava aos domingos e às terças, embebedava-se às quintas, ia ao teatro às sextas e às segundas, e todo dia à Câmara. Nas noites de chuva dormia no chão! Numa hospedaria; em noites secas no seu banco. Nunca tomava banho, pedia pouco, e ao menor alarde de generosidade, limitava o alarde com o seu desolador: é inútil. Teria tido vida melhor? Fora rico, sábio? Amara? Odiara? Sofrera? Ninguém sabia! Um dia disse-lhe:
- A tua vida é exemplar. És o Buda contemporâneo da Avenida.
Ele respondeu:
- É um erro servir de exemplo. Vivo assim porque entendo viver assim. Condensei apenas os baixos instintos da cobiça, exploração, depravação, egoísmo em que se debatem os homens se na consciência de uma vontade que se restringe e por isso é forte. Numa sociedade em que os parasitas tripudiam - é inútil trabalhar. O trabalho é de resto inútil. Resolvi conduzir-me sem idéias, sem interesse, no meio do desencadear de interesses confessados e inconfessáveis. Sou uma espécie de imposto mínimo, e por isso nem sou malandro, nem mendigo, nem um homem como qualquer - porque não quero mais do que isso.
- E não amas?
- Nem a mim mesmo porque é inútil. Desses interesses encadeados resolvi, em lugar de explorar a caridade ou outro genêro de comércio, tirar a percentagem mínima, e daí o ter vivido sem esforço com todos os prazeres da sociedade, sem invejas e sem excessos, despercebido como o invísivel. Que fazes tu? Escreves? Tempo perdido com pretensões a tempo ganho. Que gozas tu? Teatros, jantares, festas em excesso nos melhores lugares. Eu gozo também quando tenho vontade, no dia de porcentagem no lugar que quero - o menor, o insignificante - os teatros e tudo quanto a cidade pode dar de interessante aos olhos. Apenas sem ser apontado e sem ter ódios.
- Que inteligência a tua!
- A verdadeira inteligência é a que se limita para evitar dissabores. Tu podes ter contrariedades. Eu nunca as tive. Nem as terei. Com o meu sistema, dispenso-me de sentir e de fingir, não preciso de ti nem de ninguém, retirando dos defeitos e das organizações más dos homens o subsídio da minha calma vida.
- É prodigioso.
- É um sistema, que serias incapaz de praticar, porque tu és como todos os outros, ambicioso e sensual.
Quando soube da sua morte corri ao necrotério a fazer-lhe o enterro. Não era possível. Justino tinha deixado um bilhete no bolso pedindo que o enterrassem na vala comum "a entrada geral do espetáculo dos vermes".
Saí desolado porque essa criatura fora a única que não me dera nem me tirara, e não chorara, e não sofrera e não gritara, amigo ideal de uma cidade inteira fazendo o que queria sem ir contra pessoa alguma, livre de nós como nós livres dele, a dez mil léguas de nós, posto que ao nosso lado.
E também com certa raiva - por que não dizê-lo? - porque o meu interesse fora apenas o desejo teimoso de descobrir um segredo que talvez não tivesse.
Enfim morreu. Ninguém sabia da sua vida, ninguém falou da sua morte. Um bem? Um mal?
Nem uma nem outra coisa, porque, afinal, na vida tudo é inteiramente inútil...
João do Rio