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novembro 21, 2009

Rede

REDE


                   Emboladora do sono...
                   Balanço dos alpendres e dos ranchos...
                   Vai e vem nas modinhas langorosas...
                   Vai e vem de embalos e canções...
                   Professora de violões...
                   Tipóia dos amores clandestinos...
                   Grande...  larga e forte...  pra casais...
                   Berço de grande raça.


S                                  A
U                           S
S                  N
P    E


Guardadora de sonhos
Pra madona ao meio-dia
Grande... côncava...
Lá no fundo dorme um bichinho...
—  Balança o punho da rede pro menino dormir.


Extraído do Livro de Poemas
Jorge Fernandes

Nasceu um Poeta!

Foi numa tarde
O sol , no acaso , tingia o poente
De sague, de cinza,
De cores tão tristes,
Tão tristes demais!
                             – Oh feios augúrios!
                             Pro Jorge ao nascer!

Sofria num quarto,
Um ente querido,
As dores do parto,
De um parto infeliz!

                             Nos panos do leito
                             A cor do poente!...
Mais tarde, era noite,
Já noite fechada,
Ouviu-se uns vagidos
Aflitos! Aflitos!
– Meu Deus que será?..
                             E fora rezavam
                             Baixinhos louvores,
                             A Nossa Senhora
                             do Parto e das Dores!



Jorge Fernandes



Extraído do livro:
Jorge Fernandes - O viajante do tempo modernista
obra completa.

Organização: Maria Lúcia de Amorim Garcia
Editora: Rn Econômico

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setembro 04, 2009

A descoberta

 
por Tarsila do Amaral
A Descoberta

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha. 

agosto 23, 2009

Modernismo: a ENTRADA

"Os Sapos"


Enfunando os papos,

Saem da penumbra,

Aos pulos, os sapos.

A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

- "Meu pai foi à guerra!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!".

O sapo-tanoeiro,

Parnasiano aguado,

Diz: - "Meu cancioneiro

É bem martelado.

Vede como primo

Em comer os hiatos!

Que arte! E nunca rimo

Os termos cognatos!

O meu verso é bom

Frumento sem joio

Faço rimas com

Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos

Que lhes dei a norma:

Reduzi sem danos

A formas a forma.

Clame a saparia

Em críticas céticas:

Não há mais poesia,

Mas há artes poéticas . . ."

Urra o sapo-boi:

- "Meu pai foi rei" - "Foi!"

- "Não foi!" - "Foi!" - "Não foi!"

Brada em um assomo

O sapo-tanoeiro:

- "A grande arte é como

Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.

Tudo quanto é belo,

Tudo quanto é vário,

Canta no martelo."

Outros, sapos-pipas

(Um mal em si cabe),

Falam pelas tripas:

- "Sei!" - "Não sabe!" - "Sabe!".

Longe dessa grita,

Lá onde mais densa

A noite infinita

Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,

Sem glória, sem fé,

No perau profundo

E solitário, é

Que soluças tu,

Transido de frio,

Sapo-cururu

Da beira do rio




Manuel Bandeira
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"Os Sapos" causou uma grande (não foi lá muito boa) impressão na plateia na Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal... O povo ficava dizendo: Não foi...Foi... Não foi...
O Modernismo não causou uma boa impressão... Mas foi um ótimo impressionador e ainda o é.

Oswald de Andrade declarou, comentando o que havia sido dito por Graça Aranha:
"Bestética na Arte Moderna"