janeiro 08, 2012

Carta de Mário Quintana ao poeta


     
      Meu caro poeta,
por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócritos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mario Quintana

dezembro 17, 2011

Meus últimos meses, postagem de Legião Urbana, meus estresses*


Não sei se estresses escreve-se como está no título do post, sério... Não sei, por isso que gosto do Google Chrome, ele diz quando estamos errados. Se houver erro, por favor, alguém me avise. ^^
Ah, eu nunca mais postei... Além da preguiça, eu não sabia o que dizer, tava bem complicado aqui dentro, achar algo em meio tantas coisas confusas estava - está - sendo difícil, não é à toa que esta postagem não tem cunho artístico, rsrs.
Agora tenho escrito mais composições, trechos, coisas como "musiquinhas"; coisas, digamos, impublicáveis. Impostáveis, talvez (rsrs).
Arghh! Que estresse esses dias, vestibular, neh?! Coisa complicada. Mas, tipo, estaria melhor se não tivesse errado na minha inscrição pra UERN, mesmo... Enfim, agora, se eu não passar, só próximo ano. :( Triste espera. Já começo a estudar segunda... Vê se me desestresso....
Sobre minhas últimas semanas, sou deputada mirim da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. É só colocar meu nome no Google, que aparece reportagens - a mesma, eu acho, rsrs - sobre mim. Minha primeira atuação na Assembleia foi dia 12, segunda-feira, e falei bastante na Tribuna. Se conseguir os vídeos, posto no blog. Ah... Sobre o que falei... Vejamos... Sim, acho que parecia uma comunista, citei Djalma Maranhão: "De pés no chão também se aprende a ler." Falei da China e sua superioridade em  relação a nós quanto ao assunto, pois lá muitos estudam, até nas províncias mais pobres, e, mesmo sob condições precárias, o ensino é de qualidade.
Enfim... Falei até de João Goulart, ou seja... daqui a pouco serei tachada de "comunista, comunista" .
Foi muito legal, descobri projetos incríveis com os meus colegas deputados. Um deles, em especial, tem a pretenção de ajudar a scomunidades quilombolas do estado, muito massa mesmo. Se conseguir o projeto, publicu-o no blog.
Ah, quanto à Legião... Poxa, tem um post bem velho, bem antigo... um que fiz quando trinha 13 anos e publiquei no blog, foi uma interpretação infantil de uma música de Renato Russo, não tem quase nada escrito, mas muita gente critica e comenta... Queria dizer pra essas pessoas que é só um pensamento de uma recém adolescente, nao é preciso dar tanta importância.
Ah, depois eu posto mais fotos dos deputados na Assembleia.



novembro 06, 2011

Detalhes passados sobre coisas passadas


Eu faço como as pessoas: não escolho algo para olhar, eu passo o olhar sobre tudo.
Não escolho. O problema é que, talvez, algo tenha me escolhido e eu não dedico a este algo o tempo necessário. Sinto-me na obrigação. Sinto-me na vontade. Não escrevo por necessidade, como tantos, pois nem minhas magoas, alegrias, sei colocar no que escrevo e se coloco é porque a minha consciência – mesmo aos quinze anos – já me prega peças.
Eu sou o inevitável calar de bocas, sentidos e sentimentos. No entanto, sou aquela que fala, fala, sente, sente, toca.
Não me entrego, nem me devoto, mas amo. Amo as palavras não como quem ama alguém, mas como quem ama o próprio mundo.


02/01/2010



Escrevi por causa do meu conto A árvore e Lúcia.

PS. Tenho, hoje, 17 anos.

setembro 24, 2011

Poema do amor comum



Mãos enlaçadas 
Mãos no vidro 
no apartamento 
ar quente da boca
que respira ofegante 
marca a vidraça da janela 
Lá fora poucas pessoas passam 
e algumas observam o amor...
quem ama sabe bem do 
calor das faces 
que se procuram
na escuridão
Mãos enlaçadas
corpos suados
molhados... 
A tempestade bate à janela
e, como se a natureza fosse uma coisa só, 
os corpos se amam – tempestuosamente 
Até até até 
O despontar da aurora 
O cheiro de amor rondando 
A neblina … o pouco Sol que já procura os amantes...
está com inveja da lua
acha que os corpos se amam mais de madrugada...
e que não vão se amar pela manhã
Mas, de manhã, o casal se procura, se reconhece...
(acende-se a chama)
pra fazer feliz o Sol 
que se aquece do calor dos amantes...
Inclinam-se os corpos... 
Faz-se a manhã...
para um dia em que os astros
celebram os signos vários 
da natureza bem-acabada 
do amor dos seres 
que ocupam no espaço 
o mesmo lugar.